o “eu”
nunca decifrei ao certo quem eu era; ninguém me conhecia, muito menos eu.
a minha vida foi uma filosofia perdida, um livro com páginas rasgadas.
eu cercava as possibilidades, as possuía e as rasgava, sem muita cerimônia.
as palavras dentro de mim eram sólidas, úmidas e sem cor; elas saíam e se transformavam em arco-íris.
eu era múltipla: muitas mulheres, muitas pessoas, muitas vidas.
minha cabeça era morta, fria. fui infecta até meu último suspiro; nem a mais áspera bucha limparia a grossa crista que me revestia.
sozinha, eu não era ninguém; sozinha, eu era muitas. sozinha, era ininteligível, solúvel, melancólica. sozinha, eu era indecifrável.
atuava, em desespero, uma exacerbada alegria que nunca fora pura; sempre foi coração acelerado.
nunca encontrei o “eu” que procurava. sempre que o tateava em minha mão, rapidamente dissolvia-se em uma célebre tristeza, sem tempo para perguntas.
meu sonho finalmente se realizara: uma súbita alegria jamais sentida preencheu-me.
eu estava gélida — por dentro e por fora.
oca, como sempre fora, e enfim calada.
